O que as calçadas do Rio dizem sobre o carioca de hoje | Cidade do Rio

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O que as calçadas do Rio dizem sobre o carioca de hoje

Publicado por cidadedorio em 02/12/17 | Rio

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Por Pablo Vallejos,

Se a gente colocar os pés em Santa Teresa, Aterro do Flamengo, Méier ou Botafogo, vamos ter experiências diferentes com nós mesmos à medida que caminhamos. A maneira com a qual trafegamos por esses lugares pode ser encarada por diversos ângulos, seja pelo olhar da segurança ou do trânsito, claro. No entanto, já percebeu que a largura da calçada (ou a falta dela) nos coloca para pensar sobre como o carioca é desafiado a interagir em cada bairro?

No Aterro, por exemplo, as calçadas são muito largas e temos dificuldade de nos esbarrarmos, nos olharmos. No Méier, por outro lado, pegamos a Dias da Cruz e fica até difícil caminhar lentamente se estiver com sacolas num horário de pico. Sei que é um tema que desperta repulsa de quem odeia muvuca (nos caminhos espremidos), ou de quem se sente muito inseguro (nos locais mais amplos), mas a distribuição de calçadas talvez defina bem o perfil do carioca nos últimos anos.

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Improvisamos quando a calçada está cheia e vamos para o meio-fio, peitando nossa própria segurança por conta da lotação daquele caminho original. Nos espaços mais vastos, caminhamos pela beirada para não ficar em muita evidência aos olhos de possíveis assaltos. Louco isso, né? Isso diz algo sobre nós: quando estamos aos montes, queremos ter a liberdade de nos posicionar; quando estamos desunidos, dispersos, temos ânsia pelo contato humano.

O apontamento que deixo aqui, logo, não é sobre mobilidade urbana ou arquitetura; é sobre como devemos equilibrar nossa visão sobre conexão. Devemos encarar a vida no Rio (ou em qualquer lugar, na verdade) como uma calçada de médio-porte, talvez de dois a três metros, com movimento intenso, porém organizado. Respeitar a velocidade de quem está na frente e compreender a luta e ansiedade de quem vem atrás. Permitir encostar e ser encostado. Pedir perdão quando colidir; ou agradecer quando é permitida a livre passagem. Caminhar de cabeça erguida, ser empático com o trajeto do outro. Com tanto rebuliço político, agito religioso, instabilidade na segurança, talvez a solução esteja em encontrar harmonia na fala, no movimento, no passo, no olhar com o outro.

Portanto, a calçada do Rio, atualmente, ao meu ver, é tão mista quanto a própria cidade. Embora mude de formato, o caminhar de quem a habita é que precisa ser revolucionado.